quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

De ser humano- criança caí para um bicho-sem-mãe e, sem amor(categorizar)

A vida, por diversas vezes me revelou ser madrasta. Impiedosa, tramou um destino  cheio de ciladas para mim que, se não existisse um ser superior e onisciente como Deus, eu não teria sobrevivido às suas armadilhas. 
Desde um abandono doloroso à uma tentativa de estupro culminando com silenciar de um riso inocente de criança que jazia sem esperança alguma de se tornar alguém na vida, especialmente se para tal tivesse que contar com a ajuda de outros.
Para a sociedade itapetinence, que vivenciou a criação dos dois irmãos abandonados pela mãe, aqueles pequeninos, que viviam sujos, maltrapilhos, despidos de alguma parte do corpo, não passavam de bichos e, não consentiam que os seus filhos brincassem com as mesmas. 
Ouvi por diversas e dolorosas vezes um não, quando pedia a alguém para que me deixasse brincar. Um não simplesmente “porque mamãe disse que você era um bicho”. 
De ser humano- criança caí para um bicho-sem-mãe e, sem amor.
Algumas pessoas fingiam ter pena, talvez nem fosse fingimento mas, bem que parecia. Mas não era de pena de ninguém que eu precisava, era de amor; este tão puro sentimento que me foi negado quando  criança me moldou um ser frio e calculista até início da adolescência. Minha vida foi marcada pelos olhares desconfiados das pessoas, pela pena que me dedicavam e por palavras de destruição tipo: se não der para vagabunda, será ladra; se não for mãe logo cedo, será drogada. Se o primeiro comentário já era ruim, o segundo era ainda pior.
Certa vez fui passando pela frente de uma casa onde tinham crianças brincando e fiquei olhando com vontade de brincar também. As crianças tinham boneca, eram bem vestidas e bem calçadas. Jamais me deixariam participar da brincadeira. A mãe delas me viu acercando os filhos e os colocou para dentro de casa. Ouvi quando a mãe falou que esperasse eu ir embora para elas poderem voltar para a rua e brincar.. Me deu uma dor tão grande no coração que fui embora envergonhada, com lágrimas a molhar o meu rostinho de criança humilhada. Cenas e palavras que nunca saíram da minha memória.
Me perguntei muito porque que eu tinha de passar por tanta provação, pagar tanto mal sem ter cometido nenhum sequer. Estava pagando pelo mal dos outros. Mas minha maior interrogação era: QUANDO TUDO ISSO VAI ACABAR, MEU DEUS? Isso sucedeu-se na rua do clube Rogaciano Leite. Passei muitos anos sem ir àquela rua.
De tanto ouvir que eu era um bicho, caí numa depressão terrível. Não saia mais de casa, não gostava do claro, não entrosava com ninguém. Não queria mais saber da escola, pois era lá onde eu era mais magoada e, acreditem, não era por parte dos alunos, mas sim, pelos professores. Eles não sentiam prazer em me ter como aluna e faziam questão de demonstrar isso, apesar de eu sempre me esforçar para agradá-los estudando muito e participando de tudo o que faziam de novo na sala-de-aula. Uma vez não aguentei segurar o choro diante do desprezo de um  professor, que, ao trazer um joguinho pára - didático para descontrair a sala, brincou com todos os alunos, menos com o meu irmão e eu. Eu cheguei a perguntar: e eu, num vou brincar não? Ao que a professora respondeu: você não vai brincar porque você e sua roupa estão sujos. Mas como poderia  minha roupa estar limpa se eu não tinha mãe para cuidar de mim e, se eu uma criança de 6 anos saberia lavar uma roupa se nem ao menos alcançava o lavatório? Painho não tinha empregada e saia para trabalhar logo cedo, ele lavava quando chegava cedo do serviço, mas, como era época de chuva, ia pro roçado e demorava a chegar. Gente incompreensível. Desumanos e sem coração.
 Cresci ouvindo palavras negativas á respeito do meu futuro e, sentia medo de que elas de fato se tornassem realidade. Eu já havia sofrido muito na infância, não queria agora, sofrer a adolescência e a vida adulta,enfim, a vida inteira. Prometi para mim mesmo lutar por melhores primaveras e fazer de tudo para me tornar alguém, me tornar um ser humano, já que para muitos eu não passava de um bicho abandonado.
Fiz dos livros meus amigos íntimos e para superar a depressão passava o tempo lendo  em casa e  assistindo. Meu estado era deplorável. Tremia o tempo todo e chorava muito. Chorava e lamentava estar e ter vindo ao mundo. Minhas palavras eram sempre as mesma: eu não pedi para estar aqui. Eu não podia ouvir sequer o canto dos pássaros que me dava náusea, não podia ver criança rindo que me dava ânsia de morrer. Os livros que havia ganhado de uma sobrinha de meu pai me fizeram renascer. Também minhas orações por dias melhores, mesmo que futuros, pois tinha muita fé em Deus, apesar de sentir que até mesmo Ele tinha vergonha de mim, por eu ser “um bicho”. Depois de seis meses superei a crise e comecei a ir pra escola de novo, havia ficado em recuperação, mas peguei os assuntos e estudei e consegui passar. Deus tirara a bruxa da professora sem coração e colocara um professor, o Alexandre, que ficou até o fim do ano. Ele ensinava muito bem e dava a maior força para mim e meu irmão. Queria que todos os professores fossem que nem ele: atender a necessidade do necessitado e, não criar necessidade em quem não tem, tornando-se alheio aos pobres e desamparados. A partir daí surgiu em mim o sonho de ser professora e me esforcei ao máximo para realizá-lo. O resultado você verá no desenrolar dessa história.
 Eu lia muito, dominava bem a leitura de qualquer palavra e me sobressaia na sala. Os alunos começaram a se chegarem, a pedir ajuda, e eu que tinha o coração mole, não a negava.
Sou como mencionei no início deste “não breve” comentário, apaixonada por leitura, apreciadora dos famosos Érico Veríssimo, Jorge Amado, adoro o saudoso Graciliano Ramos que escrevia frases secas e precisas, como eu sou. Um professor me disse uma vez que a gente é o que a gente lê, então, acho que sou um pouco de “Graciliana” e “Érica” (risos). Sou do tipo que chora pra valer quando leio tristes histórias como a de Helena, do saudoso Machado de Assis, Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, acreditem, ainda sinto pena da pobre Teresa, amarrada àquele corpo gélido e fúnebre do seu amado, quando lançado ao fundo mar, para afundar-se nas águas. Coitadinha...Agora, minha maior paixão é pelo escritor Charles Kiefer, autor do primeiro livro que li: Caminhando na Chuva. Este livro é auto biográfico também, muito bem elaborado, e, indico ele à todo mundo que  pede para recomendar uma boa leitura, acreditem, vale mesmo a pena lê-lo. Acho que gostei muito do mesmo porque a história, os gostos e manias de Charles são muito parecidos com as minhas, como por exemplo o hábito de caminhar na chuva e de chorar, também na chuva, para que suas lágrimas sejam ludibriadas com a água, enganando a quem passa: os curiosos e doidos por uma boa conversinha, ou  a popular resenha, se preferirem.
Começarei em fim a relatar a minha simples história e, tentarei ser sincera em todas as minhas palavras, e procurarei não ser injusta esquecendo bons momentos de minha vida e boas pessoas que por ela passaram. E, também não omitirei todo o sofrimento vivido, pois estes me fizeram forte, me fizeram viver uma vida de “pés no chão” e lutar por meus sonhos que me pareciam inalcançável. 

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